Dra. Ilma Paschoal, Pneumologista e Doutora em Medicina
Assessora técnico-científica da Divisão Home Care da AGA Linde Healthcare
[ janeiro 2003 ] Roncar pode ser “apenas” um problema social, mais um fator complicador de relações interpessoais já tão difíceis nestes nossos tempos conturbados.
Aquele ruído desagradável, muitas vezes bastante intenso, é provocado pela vibração das estruturas do nariz e da garganta desencadeada pela passagem do ar ao entrar e sair durante a respiração.
Neste tipo de ronco, o som é, na maior parte do tempo, contínuo e uniforme e não apresenta grandes variações de intensidade e de freqüência.
Portanto, roncar não é, obrigatoriamente, sinônimo de doença. Este ronco “social” pode trazer problemas para o indivíduo, porém não tem repercussões importantes na sua saúde.
Há roncos que podem indicar a presença de alterações funcionais respiratórias durante o sono de gravíssimas conseqüências para o bem-estar e a para a própria sobrevivência do seu portador.
Nestes casos, o ronco tem um padrão bastante característico: a intensidade crescente do ruído até um pico e a interrupção súbita da produção do som; estes ciclos se repetem muitas vezes ao longo do período de sono.
Este padrão de ruído indica que, a cada ciclo, acontece uma progressiva redução do espaço disponível para a passagem do ar nas vias aéreas superiores até que este espaço desaparece totalmente; neste momento, a pessoa para de respirar e pode permanecer assim por vários segundos, às vezes até mais de um minuto.
A interrupção da respiração desencadeia uma reação de alarme no organismo que tem por objetivo superficializar o sono de modo a fazer com que o indivíduo retome sua respiração normal.
Por que acontece esta obstrução das vias aéreas superiores? Na maioria dos casos, a obstrução se dá pelo deslizamento da língua para trás numa pessoa que já tenha os espaços de passagem do ar na garganta relativamente diminuídos.
Dois grupos de pessoas são propensos a ter esta limitação de espaço: os obesos, de baixa estatura e pescoço curto; os indivíduos com queixo pequeno, com a mandíbula (osso maxilar inferior) posicionada mais para trás.
O deslizamento da língua acontece durante o sono porque, quando dormimos, todos os músculos (com exceção do diafragma, responsável pela respiração, e dos músculos que movimentam os olhos) entram num estado de profundo relaxamento.
Ao perder tônus, a língua escorrega para trás e tampa a entrada da laringe, impedindo assim o deslocamento do ar para o interior da traquéia.
O diagnóstico da apnéia obstrutiva do sono é feito em um exame denominado polissonografia. Ele é realizado durante o sono e normalmente acontece em um local apropriado, o laboratório do sono, onde estão as máquinas capazes de fazer as medidas necessárias e registrá-las.
Portanto, para ter seu problema diagnosticado, o paciente necessita dormir uma ou duas noites no laboratório, muito embora já existam máquinas portáteis que podem ser utilizadas em casa.
Durante o procedimento, vários equipamentos são fixados ao corpo do paciente, para as diferentes medidas que serão realizadas por toda a noite.
A interrupção periódica da respiração prejudica muito a qualidade do sono e estas pessoas, portadoras da chamada “apnéia obstrutiva do sono”, são conhecidas pelo fato de estarem freqüentemente sonolentas durante o dia.
Este sono fora de hora pode trazer problemas sociais, profissionais e pode matar, se, por exemplo, aparecer durante a condução de veículos. Dormir na direção é causa importante de aumento nas estatísticas de acidentes automobilísticos.
Além dos acidentes com automóveis e com a operação de outras máquinas que exijam atenção, a apnéia obstrutiva do sono traz problemas de saúde, a longo prazo.
A falta de respiração desencadeia, como já vimos anteriormente, uma reação de estresse que, entre outras coisas, faz subir a pressão arterial e pode prejudicar o controle do diabetes em indivíduos já portadores deste mal.
A Hipertensão Arterial tem todas aquelas conseqüências para o coração, os vasos e o cérebro, já tão discutidas e conhecidas.
Além disso, a cada vez que o indivíduo para de respirar, cai a concentração de oxigênio no sangue, prejudicando todas as células do organismo, em especial as do coração e do cérebro. A insuficiência cardíaca é uma complicação comum da apnéia obstrutiva do sono.
O tratamento da apnéia obstrutiva do sono nos indivíduos que estão acima do peso obrigatoriamente inclui emagrecer. A obesidade colabora para a obstrução das vias aéreas por acumular tecido gorduroso nas passagens de ar das vias aéreas superiores.
Durante alguns anos, tentou-se a redução deste tecido na garganta pela retirada cirúrgica de algumas estruturas, tais como a úvula (“campainha”), parte do palato mole e algumas áreas da própria faringe.
Os resultados desta cirurgia, a longo prazo, não foram muito bons. A correção cirúrgica está indicada em casos de mau posicionamento da mandíbula.
Outra alternativa terapêutica envolve o uso de aparelhos portáteis geradores de um alto fluxo de ar, fluxo este que é aplicado ao nariz por meio de uma máscara nasal.
Espera-se, com este grande fluxo de ar, criar pressão nas vias aéreas superiores, de modo a empurrar suas paredes de encontro ao arcabouço ósseo e assim ampliar as vias de passagem para a respiração.
A necessidade de dormir com este tipo de suporte respiratório parece assustadora; no entanto, os resultados na melhoria da qualidade do sono e no controle da sonolência diurna funcionam como incentivo para que o paciente persista usando.
Na maioria das vezes, apesar de uma fase difícil de adaptação, os pacientes acabam de acostumando com a máquina e a máscara nasal.
De tudo o que foi discutido aqui, fica a mensagem de que só o profissional especializado pode definir corretamente se existe ou não apnéia do sono e indicar o melhor método de tratá-la.
Os conceitos emitidos pelos autores não traduzem necessariamente a opinião da empresa.